sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A menina dos fósforos

Estava tanto frio! A neve não parava de cair e a noite aproximava-se. Aquela era a última noite de Dezembro, véspera do dia de Ano Novo. Perdida no meio do frio intenso e da escuridão, uma pobre rapariguinha seguia pela rua fora, com a cabeça descoberta e os pés descalços. É certo que ao sair de casa trazia um par de chinelos, mas não duraram muito tempo, porque eram uns chinelos que já tinham pertencido à mãe, e ficavam-lhe tão grandes, que a menina os perdeu quando teve de atravessar a rua a correr para fugir de um trem. Um dos chinelos desapareceu no meio da neve, e o outro foi apanhado por um garoto que o levou, pensando fazer dele um berço para a irmã mais nova brincar. 
 Por isso, a rapariguinha seguia com os pés descalços e já roxos de frio; levava no avental uma quantidade de fósforos, e estendia um maço deles a toda a gente que passava, apregoando: — Quem compra fósforos bons e baratos? — Mas o dia tinha-lhe corrido mal. Ninguém comprara os fósforos, e, portanto, ela ainda não conseguira ganhar um tostão. Sentia fome e frio, e estava com a cara pálida e as faces encovadas. Pobre rapariguinha! Os flocos de neve caíam-lhe sobre os cabelos compridos e loiros, que se encaracolavam graciosamente em volta do pescoço magrinho; mas ela nem pensava nos seus cabelos encaracolados. Através das janelas, as luzes vivas e o cheiro da carne assada chegavam à rua, porque era véspera de Ano Novo. Nisso, sim, é que ela pensava. 
Sentou-se no chão e encolheu-se no canto de um portal. Sentia cada vez mais frio, mas não tinha coragem de voltar para casa, porque não vendera um único maço de fósforos, e não podia apresentar nem uma moeda, e o pai era capaz de lhe bater. E afinal, em casa também não havia calor. A família morava numa água-furtada, e o vento metia-se pelos buracos das telhas, apesar de terem tapado com farrapos e palha as fendas maiores. Tinha as mãos quase paralisadas com o frio. Ah, como o calorzinho de um fósforo aceso lhe faria bem! Se ela tirasse um, um só, do maço, e o acendesse na parede para aquecer os dedos! Pegou num fósforo e: Fcht!, a chama espirrou e o fósforo começou a arder! Parecia a chama quente e viva de uma candeia, quando a menina a tapou com a mão. Mas, que luz era aquela? A menina julgou que estava sentada em frente de um fogão de sala cheio de ferros rendilhados, com um guarda-fogo de cobre reluzente. O lume ardia com uma chama tão intensa, e dava um calor tão bom! Mas, o que se passava? A menina estendia já os pés para se aquecer, quando a chama se apagou e o fogão desapareceu. E viu que estava sentada sobre a neve, com a ponta do fósforo queimado na mão. 
 Riscou outro fósforo, que se acendeu e brilhou, e o lugar em que a luz batia na parede tornou-se transparente como tule. E a rapariguinha viu o interior de uma sala de jantar onde a mesa estava coberta por uma toalha branca, resplandecente de loiças finas, e mesmo no meio da mesa havia um ganso assado, com recheio de ameixas e puré de batata, que fumegava, espalhando um cheiro apetitoso. Mas, que surpresa e que alegria! De repente, o ganso saltou da travessa e rolou para o chão, com o garfo e a faca espetados nas costas, até junto da rapariguinha. O fósforo apagou-se, e a pobre menina só viu na sua frente a parede negra e fria. 
 E acendeu um terceiro fósforo. Imediatamente se encontrou ajoelhada debaixo de uma enorme árvore de Natal. Era ainda maior e mais rica do que outra que tinha visto no último Natal, através da porta envidraçada, em casa de um rico comerciante. Milhares de velinhas ardiam nos ramos verdes, e figuras de todas as cores, como as que enfeitam as montras das lojas, pareciam sorrir para ela. A menina levantou ambas as mãos para a árvore, mas o fósforo apagou-se, e todas as velas de Natal começaram a subir, a subir, e ela percebeu então que eram apenas as estrelas a brilhar no céu. Uma estrela maior do que as outras desceu em direcção à terra, deixando atrás de si um comprido rasto de luz. 
 «Foi alguém que morreu», pensou para consigo a menina; porque a avó, a única pessoa que tinha sido boa para ela, mas que já não era viva, dizia-lhe muita vez: «Quando vires uma estrela cadente, é uma alma que vai a caminho do céu.» 
 Esfregou ainda mais outro fósforo na parede: fez-se uma grande luz, e no meio apareceu a avó, de pé, com uma expressão muito suave, cheia de felicidade!
 — Avó! — gritou a menina — leva-me contigo! Quando este fósforo se apagar, eu sei que já não estarás aqui. Vais desaparecer como o fogão de sala, como o ganso assado, e como a árvore de Natal, tão linda. 
 Riscou imediatamente o punhado de fósforos que restava daquele maço, porque queria que a avó continuasse junto dela, e os fósforos espalharam em redor uma luz tão brilhante como se fosse dia. Nunca a avó lhe parecera tão alta nem tão bonita. Tomou a neta nos braços e, soltando os pés da terra, no meio daquele resplendor, voaram ambas tão alto, tão alto, que já não podiam sentir frio, nem fome, nem desgostos, porque tinham chegado ao reino de Deus. 
 Mas ali, naquele canto, junto do portal, quando rompeu a manhã gelada, estava caída uma rapariguinha, com as faces roxas, um sorriso nos lábios… mor ta de frio, na última noite do ano. O dia de Ano Novo nasceu, indiferente ao pequenino cadáver, que ainda tinha no regaço um punhado de fósforos. — Coitadinha, parece que tentou aquecer-se! — exclamou alguém. Mas nunca ninguém soube quantas coisas lindas a menina viu à luz dos fósforos, nem o brilho com que entrou, na companhia da avó, no Ano Novo. 

 Hans Christian Andersen 
Os melhores contos de Andersen 
Editora Verbo, s/d

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

o coração acelerado

Traga de volta meu coração acelerado.
Clichê, clichê, clichê, 20 vezes.
Eu sou um ser atemporal, perdido no espaço.
Tu és tu.
Ele/ela não sabia.
Quem é que me entendia com seus conselhos inócuos e sua vida sem sentido?
Eu ainda sinto sua ausência, e a agonia de ficar sempre assim, me leva pra qualquer lugar.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Fácil Amor


Sentia-se como se estivesse dentro daquele poema de Drummond: João que amava Maria que amava Pedro...
Tinha um coração vadio e inquieto.
Por isso amava João, Pedro, Joaquim e até Alberto que, engatado nela feito cachorro no cio, não a amava nem um pouco.

Gustavo Rios, in: O Amor é Uma Coisa Feia. 7 Letras

Topo poeta é um perdedor


Quando a vi pela primeira vez, tive vontade de escrever-lhe um longo poema que falasse de amor. Nada entendia de metáforas. Busquei algumas belas palavras no dicionário e coloquei no papel meus mais sinceros sentimentos.

Na sexta-feira a vi passando na rua. Entreguei-lhe o "tal" papel com meu "poema". Exultante com minha coragem. Ela passou o olho e sorriu com candura. Deu-me um beijo no rosto e se foi.

Um pouco mais tarde eu voltava para casa, deslumbrado com esse novo sentimento. No caminho havia um muro. Do outro lado desse muro - era alto e dava para um matagal - ouvi alguns gemidos. Subi com cautela para ver o que era, movido por minha curiosidade. Ela estava de joelhos, enquanto um cara gemia e gozava dentro de sua boca.

Passei o resto da noite pensando o que havia de errado com meu longo e sincero poema de amor.

Gustavo Rios, in: O Amor é Uma Coisa Feia. 7 Letras

Onde a pluralidade vira normal

O universo está cada vez mais claro.
Não vejo mais as cores erradas. Não vejo nada.

domingo, 25 de novembro de 2012

Caçador de Bisouros

Era uma vez Lílian. Era uma vez Pedro.
Eram gêmeos, gêmeos fraternos. Lílian cresceu e tornou-se prostituta. Pedro não cresceu ainda, mas tornou-se advogado, depois juíz. Não se viam desde o dia exato do aniversário de sua mãe, que morrera tragicamente com um pedaço de bolo de chocolate entalado na garganta.
Lílian, uma menina de 9 anos, pele clara, cabelo ruivo, sardinhas espalhadas pelo corpo, menina de aparência esperta, olhos cativantes, mesmo com pouca idade sabe convencer qualquer um que sua opinão é a mais adequada sempre, quer ser policial quando crescer.
Foi levada a um orfanato no suburbio de sua cidade natal, chamado St Peter, lá ela encontrou uma rotina até que agradável, embora sem luxo algum. De manhã brincava com os meninos da casa, jogava bola e corria. Ela nem ligava se caia e se ralava, tinha muita diversão lá, porém quando pensava em seu irmão seu dia se fechava, não tinha ânimo nem pra pular corda. À tarde era a hora dos estudos, e ela gostava do que aprendia.
ESSE PARÁGRAFO CONTA A HISTÓRIA DE PEDRO
27 de abril, aniversário de 13 anos de Lílian, ela acrdou numa manhã fria e com um sol ralo, se lembrou de seu irmão, o dia fechou. Também era o aniverásio dele e ela se sentia frustada por já não se lembrar mais de sua voz, porém seus olhos eram impossível esquecer, eram idênticos aos dela. O diretor do orfanato a chamou em sua sala, Lílian não sabia o que poderia ser, talvez ela recebesse algum presente especial pelo aniversário. Bateu duas vezes na porta, o diretor a abriu coma feição indiferente, não demostrava nenhum soriso e nenhuma frustação. Mandou-a sentar. Ela sentou-se enquanto ele fechava a cortina. Ele abaixou as calças e começou a se maturbar, Lílian com medo fugiu, ele não impediu. Seu dia nunca mai se abriu.
ESSE PARÁGRAFO CONTA A HISTÓRIA DE PEDRO
Reticências e todos morrem no final

borboletas no aquário

Mais um dia desses e a morte vem me encontrar.
Dia de desistir do mundo, dia de repensar, dia de querer só assistir um vida pior do que a minha. 
Não preciso beber, não preciso esquecer. Não tem como. Essa agunia me deixa exausto, não aguento mais esquecer o que eu deveria lembrar e lembrar o que eu deveria nem ter feito. Quero mandar todos a puta que pariu, mas não posso.
Devo manter meu foco? 
ou devo apenas ignorar a existência dos números?